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Embodying Paradise: silent cities and sacred groves on the margins of Europe. Roman Catholic cemeteries in Lithuania and Portugal
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A dissertation focuses on Catholic burial grounds located on the borders of Catholic Europe, and the influence that post-mortal imaginaries had on their development. An axis of the time frame of the research is nineteenth century - the period during which cemeteries were defined as an autonomous architectural typology.
The removal of the burial ground from the churchyard took place over times of significant changes in the European mentality. Besides aiming to propose hygienic solutions, this newly created typology sought equally to fulfil a number of socio-political purposes. The place for the dead became then a stage for the perpetuation of civic and individual memory, as well as for the transmission of political and ideological narratives engineered by liberal philosophy. This unfolded nevertheless eschewing to contradict centennial religious traditions.
Despite the predominance of the Catholic Church in both Lithuania and Portugal, their specific cultural and political contexts engendered different spatial conditions with respect to the territories of the dead. In order to understand these implications and how they reflected particular configurations, four case-studies were selected and architecturally deconstructed: two of them located in Vilnius, Lithuania, namely Rasos and Bernardines cemeteries, and the other two in Lisbon, Portugal, namely Prazeres and Alto de São João cemeteries.
The dissertation traces the evolution of funerary landscapes in Western Europe from the earliest ages of Christianity. In parallel, it analyses the funerary customs of pagan Lithuania and the resistance of the Balts to the transformation of their thanatological proceedings imposed by the Holy See.
The spatiality of the four burial grounds is examined in the light of their internal relations and the capacity of their elements to connect and communicate views on the notions of Death, Afterlife and Memory in regions far-removed from the epicentre of Roman Catholicism. On top of supporting historical and cultural interpretations, the study also employs methodologies of urban analysis, such as Space Syntax, in order to help dissect a social logic implicit in the design of the necropoles.
In various cases in Europe, this new typology followed design inspirations from landscaping that were rehearsed in the previous centuries. Despite the recreation of mythological locations in picturesque gardens though, it is with advent of the cemetery that the most complete representation of Paradise is achieved. This was due to the presence of death and its effect of incorporating in space a new dimension of the Beyond. The dissertation explores then a variety of architectural expressions that take root in the post-mortal imaginaries and the diverse understanding of Paradise in Christianity. While the canonical Catholic burial grounds established themselves as a version of Heavenly Jerusalem or a city of the dead, the cemeteries of the same period in Lithuania embodied the image of Sylvan Arcadia – the forest – and thus probably stood as the last stronghold of paganism of the Baltics.

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Avatares do Paraíso: cidades silenciosas e bosques sagrados nas margens da Europa.
Cemitérios Católicos em Portugal e na Lituânia

A dissertação tem como tema central o estudo da espacialidade dos cemitérios na Lituânia e em Portugal, duas das margens da Europa católica, bem como a influência dos imaginários pós-mortais na construção das necrópoles oitocentistas. O arco temporal desta investigação é estruturado em torno do período da concepção e desenvolvimento do cemitério enquanto tipologia autónoma. São ainda abordados os tempos anteriores à invenção do cemitério – recuando vários séculos na História, percorrendo a evolução da paisagem funerária na Europa ocidental desde as primeiras épocas cristãs. Em paralelo, são estudados os costumes funerários da Lituânia pagã e a resistência báltica à transformação que o Cristianismo tentava impor aos seus ritos ancestrais.
Apesar da prevalência católica, tanto na Lituânia como em Portugal, os respectivos contextos históricos e ambientais produziram, ao longo do tempo, configurações distintas dos espaços da morte. Em busca do entendimento destas configurações espaciais particulares, foram escolhidos como casos de estudo e analisados quatro cemitérios urbanos: dois em Vilnius, Lituânia – o cemitério de Rasos e o cemitério dos Bernardinos; e dois em Lisboa, Portugal – o cemitério dos Prazeres e o cemitério do Alto de São João.

A espacialidade dos quatro cemitérios é analisada como um conjunto de ligações internas, um sistema complexo capaz de comunicar e relacionar conceitos e práticas perante a Morte, o Além e a Memória, em regiões da Europa periférica e afastadas do núcleo central do Catolicismo Romano. Além das interpretações históricas e culturais, a investigação usa metodologias de análise espacial – nomeadamente Sintaxe Espacial – para dissecar a lógica social implícita no desenho cemiterial.

Os debates sobre o cemitério como tipologia autónoma e sobre a sua espacialidade começaram ainda no século XVIII. O afastamento dos cemitérios dos núcleos urbanos foi, em muitos casos, catalisado pelos cataclismos epidémicos, circunstância que levou à adopção, pelas instituições públicas, de estratégias higienistas que acabariam por se tornar directrizes fundamentais para definição espacial desta tipologia.
O afastamento do lugar de enterro do adro da igreja ocorreu já no século XIX, a par de grandes transformações culturais e sociopolíticas. Além de prosseguir soluções higienistas, a nova tipologia do lugar dos mortos procurava responder a uma série de novos requisitos, tais
como a retórica político-ideológica veiculada pela filosofia liberal, afirmando nacionalismos – já instalados ou emergentes – novas linhagens familiares, e a perpetuação da memória cívica e individual, através de manifestações artísticas que elevaram a condição da necrópole à de ‘museu ao ar livre’.

A tipologia inventada pela nova mentalidade, na região mediterrânea do Catolicismo Europeu, materializou na sua estrutura e expressão a cidade dos vivos – uma cidade análoga – mineralizada e geometrizada, amuralhada, organizada em torno do templo, com as ruas plantadas com uma vegetação cuidadosamente selecionada e associada a uma simbologia religiosa, representava a mítica espacialidade da Jerusalém Celeste.
Entretanto, e num outro extremo da Europa, o cemitério não encontrou lugar na agenda política na Lituânia oitocentista. Ficou sob a tutela da Igreja católica, que desenvolveu os lugares dos mortos sem abandonar totalmente os bosques sagrados como configuração espacial da necropolis – a morte voltou encontrar o seu lugar no meio da natureza natural e não projectada, o que pode ser visto como um símbolo de eterno retorno. Os cemitérios na Lituânia tendem a ser delimitados por muros baixos, mantendo a vegetação autóctone e a topografia original, organizando-se segundo uma disposição mais orgânica, que denota uma edénica ausência de hierarquia espacial.

Na dissertação sustenta-se que a imagem da floresta sagrada dominante nos cemitérios oitocentistas na Lituânia fluiu dos costumes pagãos, que no espaço silvestre encontraram uma dimensão divina – lugar mediador entre cá e o Além, habitado pelos deuses e almas dos antepassados.
Antes da cristianização do território báltico, nem todo o território florestal pertencia ao sagrado – por vezes, o espaço funerário cingia-se apenas a certas árvores, pequenos segmentos de floresta ou um bosque específico.
Após a cristianização, com o objectivo de apagar costumes pagãos, a Igreja Católica reduziu, ou arrasou, em alguns casos, bosques sagrados; porém, as recém-cristianizadas etnias bálticas nos séculos XVI e XVII continuaram exercer práticas fúnebres nas florestas, acreditando no seu poder mágico e protector. A importância das árvores nos costumes tanatológicos é ainda visível no século XVIII, quando a Igreja (tentando consolidar-se com as tradições bálticas) autorizou a construção de cruzes tumulares em madeiras ditas femininas (por exemplo, de choupo-tremedor) ou masculinas (por exemplo, de carvalho-roble) consoante o género do defunto. Nos nossos tempos, a crença que a alma do morto passa habitar numa árvore continua a existir em algumas localidades rurais na Lituânia.
No século XVIII, a floresta tornou-se o bem principal da economia do território lituano. O Romantismo viu também na floresta um eixo da identidade local. Pode-se dizer que a floresta concentrou a ideia de uma Lituânia perdida – primeiro através cristianização iniciada em 997 e terminada em 1413, e depois pelo fim da República das Duas Nações, em 1795.
A elite intelectual do século XIX, em frequentes casos com ligações aos movimentos maçónicos, teceu hinos às florestas, onde louvou a majestade de um império pagão, incorporada na grandeza e harmonia das árvores. Neste contexto revivalista foram, ainda, criados imaginários da arquitectura florestal sublime, de um lugar simbólico e virgem, onde ainda se sentia uma presença transcendental.
Assim, fundamentando-se no passado pré-cristão, o Romantismo oitocentista no território lituano, elaborou a narrativa da floresta como uma incorporação da Arcádia: Adam Mickiewicz enalteceu a harmonia silvestre no poema “Pan Tadeusz” (polaco, Sr.Tadeusz), e Antanas Baranauskas, no poema “Anykš?i? šilelis” (lt., A floresta de Anykš?iai), questionou-se “Será que isto onde estou é uma floresta, ou isto é o Além, ou é o Paraíso?”

No Ocidente, o Cristianismo medieval e depois renascentista por sua vez idealizou uma natureza enclausurada e protegida, à qual atribuiu simbologia da Virgem e da alma, que tinha de ser cuidada por cada crente como fosse um jardim. Inúmeras pinturas, algumas delas incorporando “Paraíso” no título, mostravam Virgem com o Menino nas mãos, rodeada por plantas com significados simbólicos, no meio de um jardim enclausurado – lugar seguro e protegido das malícias da vida mundana.
Denominado de Paraíso em várias ordens religiosas, o hortus conclusus fazia, por sua vez, parte da arquitectura monástica: rectangular ou quadrado, dividido em quatro partes por dois eixos que o atravessavam cruzando no centro, onde era colocada uma fonte. Esta estrutura fundamental da organização do jardim relacionava-se com a simbologia de quatro virtudes cardinais, os quatro evangelistas, ou os quatro grandes rios do mundo, que como descritos na Bíblia, no livro do Génesis, tinham o seu início no Paraíso Terrestre, onde após da criação do mundo viviam Adão e Eva. E é com a sua expulsão deste lugar protegido, que a morte, punição suprema, surge na espécie humana.
Durante vários séculos acreditou-se firmemente que o Paraíso Terrestre tinha existido, e por isso podia ser encontrado. Nas viagens em busca dos Novos Mundos também foi procurado o lugar onde foi criada a humanidade. Este lugar não foi encontrado, mas os Novos Mundos, com as suas plantas e animais exóticos e por classificar, fizeram sonhar com o Paraíso perdido.
Por nunca ser redescoberta, esta idylle perdida no passado, mas que se espera que ainda exista sob a forma de Paraíso Terrestre – acabou por deixar o campo aberto para recriações nos jardins e parques. Pelo lado da memória esta ideia de jardim também se tornou palco
para honrar os grandes homens, as virtudes e as obras deles: os jardins receberam várias estruturas da arquitectura dedicadas aos ilustres – monumentos que nos seus estilos viajaram às culturas do passado. O jardim no Ocidente – tanto o enclausurado como o pitoresco – procurou evocar sentimentos através do seu significado, da sua simbologia, tornando-se também, e por isso mesmo, uma escola de cultura moral.

Contudo, a chegada de túmulos ao jardim setecentista não foi imediata. Os túmulos aparecem no jardim como extensões de encenações paisagísticas, acrescentando à mensagem iluminista a dimensão do tempo e uma referência à vanitas da vida. Mais do que isso, os mausoléus (primeiro, memoriais sob a forma de fabrique, mais tarde verdadeiros túmulos) serviram de simulacro da memória dum ente querido, transformando a paisagem em templo ao passado.
Apesar dos sítios mitológicos terem sido recriados nos jardins paisagistas, é com as necrópoles modernas, através da presença da morte que integra a dimensão do Além e da Eternidade, que a cultura ocidental atingiu o mais completo avatar do Paraíso. E enquanto o cemitério católico canónico se sedimentou numa versão da pétrea Jerusalém Celeste – a cidade dos mortos – os cemitérios no território lituano incorporaram a Floresta, uma Arcadia Silvestre que representa o último bastião do paganismo báltico.
E a morte – ansiedade fundamental (Schutz 1945) da condição humana – foi, em ambos os casos, propulsora da criação de espaços de memória, cujo papel simbólico se materializou na cenografia cemiterial: lugar onde, a partir de Oitocentos, a sociedade ocidental tem vindo a condensar sua compulsiva esperança de imortalidade.